Contexto histórico

A Grande Travessia

O que empurrou nossos ancestrais para o Brasil?

Voltar à Nossa História
Navio à vela do século XIX durante uma travessia oceânica

A decisão de abandonar a terra natal e cruzar um oceano rumo ao desconhecido nunca é fácil. Para os nossos antepassados, a vinda para o Brasil não foi apenas uma aventura, mas uma verdadeira fuga pela sobrevivência. A Europa do final do século XVIII e início do século XIX era um barril de pólvora, castigada por uma tempestade perfeita de crises econômicas, climáticas e políticas.

Mas o que exatamente estava acontecendo no Velho Continente?

Economia em transformação

Máquinas, Desemprego e Fronteiras Fechadas

A Revolução Industrial, que começara na Inglaterra, varreu a Europa mudando as regras do jogo. A chegada das máquinas trouxe uma produtividade inalcançável para os processos manuais, esmagando os profissionais liberais e artesãos. De repente, alfaiates, carpinteiros, tecelões e artesãos viram suas profissões se tornarem obsoletas.

Essa multidão de desempregados migrou para as cidades, engrossando as massas de famintos. Para piorar, a França ergueu barreiras protecionistas com impostos alfandegários pesados, estrangulando ainda mais a economia de regiões vizinhas, como a Confederação Helvética (Suíça), a Prússia e o Império Austro-Húngaro. No campo, a situação não era melhor: o fim do sistema feudal deixou os camponeses livres, mas presos a propriedades minúsculas (minifúndios) e terras exauridas pelo uso contínuo.

1816

O Ano Sem Verão: Um Apocalipse Climático

Como se a economia em frangalhos não bastasse, a natureza interveio de forma catastrófica. Em 1815, o vulcão Tambora, na Indonésia, protagonizou a pior erupção dos últimos 10.000 anos. Uma quantidade colossal de cinzas foi lançada na atmosfera, bloqueando a radiação solar em todo o mundo, com efeitos devastadores no Hemisfério Norte.

O ano seguinte, 1816, entrou para a história como o “Ano Sem Verão”. Em pleno mês de junho, as temperaturas despencaram e chuvas incessantes castigaram a Europa. As colheitas foram aniquiladas, paralisando a economia agrícola que já não tinha reservas de cereais para suportar o inverno. A inflação disparou e a fome em massa se espalhou. Apenas na região de St. Gall, na Suíça, mais de 5.000 pessoas morreram de fome em 1817. O desespero era real.

Europa e Brasil

O Xadrez Político e o Chamado do Brasil

Politicamente, a Europa tentava se reerguer após o furacão das Guerras Napoleônicas e da Revolução Francesa. O domínio francês havia despertado um forte sentimento nacionalista alemão, culminando nas guerras de libertação e na criação da Confederação Germânica em 1815.

Do outro lado do Atlântico, o Brasil vivia seus próprios conflitos. Com a independência se desenhando, o país precisava desesperadamente de duas coisas: colonos para ocupar o Sul e Sudeste (garantindo a posse das terras) e um exército profissional para defender as fronteiras contra as repúblicas vizinhas, lutar na Guerra da Cisplatina (contra a Argentina) e enfrentar as tropas portuguesas ainda fiéis à Coroa.

Foi a Imperatriz D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria e esposa de D. Pedro I, quem sugeriu a solução: trazer alemães. Assim, em 21 de agosto de 1822, o ministro José Bonifácio assinou um decreto autorizando a imigração de até 4.000 pessoas. O plano era genial e um tanto ardiloso: eles seriam divididos entre soldados (disfarçados de colonos, com contrato de seis anos no exército) e colonos puros (que receberiam terras, mas atuariam como milícia armada em caso de guerra).

Recrutamento

A Missão Secreta do Major Schaeffer

A espinhosa missão de recrutar essa mão de obra coube ao Major Johann Anton Von Schaeffer. Havia um grande obstáculo: o Congresso de Viena proibia a exportação de soldados, e as potências europeias viam D. Pedro I como um rebelde usurpador.

Schaeffer teve que agir nas sombras. Ele focou nos Estados da atual Renânia (de onde vieram cerca de 50% dos nossos imigrantes), mais precisamente na região do Hunsrück, entre os rios Reno, Mosela, Nahe e Saar. Para convencer esse povo sofrido, a oferta do governo brasileiro era irrecusável: cerca de 77 hectares de terra, ferramentas, gado, sementes, auxílio financeiro por dois anos e isenção de impostos por uma década.

Rumo ao desconhecido

Uma Viagem Sem Volta

Para driblar as autoridades, os soldados embarcavam disfarçados entre as famílias de agricultores. A jornada começava com uma exaustiva viagem de diligência que durava cerca de quatro semanas até o porto de Hamburgo. Lá, passavam por quarentena e recebiam um “certificado de cidadania brasileira” — um documento que exigia a renúncia expressa da cidadania alemã. O recado era claro: não havia como voltar atrás.

Os navios, veleiros de carga de três mastros, foram improvisados com beliches em áreas semicobertas para acomodar as famílias. Quando as âncoras finalmente subiam, as lágrimas da despedida se misturavam a um sentimento de alívio. Deixar a Alemanha significava dizer adeus à família e aos amigos, mas também representava a fuga da fome, da guerra, do desemprego e da falta de perspectivas.

Era o fim do desespero e o começo de uma nova história em terras brasileiras.

Conheça a saga da Família Berbert